terça-feira, 16 de maio de 2017

Falei hoje de ti ao meu peito

 

Falei hoje de ti ao meu peito, meu bem.

Perguntei se ainda te recordava, se ainda te sentia a falta.

Mas nada me respondeu.

 

Lembrei-o das canções que cantavas, das flores que trazias, do cheiro da tua presença,

e até da tua ausência, quando partias, sem mim.

Dizias-me que quando a saudade me inundasse, inundava-te também,

Porque éramos um, com um só coração…

 

Falei ao meu peito dos teus livros cheios de histórias que líamos juntos,

e da calma que me oferecias quando me abraçavas,

dos teus dedos que entrelaçavam os meus, naquele gesto protetor que era tão teu...

Falei-lhe do cheiro do café pela manhã, que oferecíamos com um sorriso,

O desejo de boa sorte, quando havia medo de falhar,

O silêncio que dizia tudo, quando palavras não se adequavam ao nosso sentir…

 

Mas o meu peito remeteu-se ao silêncio.

E eu continuei - falei dos dias passados junto ao mar,

das tuas mãos que brincavam no meu cabelo – inesquecíveis, como tu,

da clareza dos teus olhos quando me observavam,

da franqueza das tuas palavras quando me pedias que voasse rumo aos meus sonhos.

E eu voava, porque tu eras o colo seguro que tinha para pousar, com um punhado de sonhos que guardavas para mim…

 

Falei de ti, como se te pudesse ver nem que fosse por um segundo, como se pudesse abraçar o teu abraço a qualquer momento,

numa prece muda de que não mais me deixasses assim, sem o teu peito, único,

para que o meu peito se encostasse.

 

E depois, as palavras não me chegaram, para falar de ti, para falar de nós…

 

Calei-me numa sisudez igual ao silêncio desta casa,

Na esperança de poder adormecer, para poder sonhar com o mesmo punhado de sonhos que guardavas para mim.

 

E, foi quando ouvi o meu peito sussurrar o teu nome,

E senti que doía-lhe a tua ausência, como me doem as palavras que ficaram numa história de amor

Que nem esta solidão, nem nada no mundo pode ou consegue apagar.

 

Falei de ti ao meu peito, e, chorámos…

Não por ti, nosso bem, mas pela falta que nos fazes…

 

Talvez porque seja sempre cedo para não tardar o momento de deixar

quem se ama, partir.

 

*

 

Ilustração musical: Carlos Silva

 

 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Pela Magia de Acreditar - 7ª e Última Parte



Já sem tocar com os pés no chão, uma vez que sabiam e podiam flutuar, Kiroan e Haran chegaram-se perto da porta. Kiroan era o único a poder entrar. Haran estava por ora no seu limite de ação. Agora só o jovem ninja podia entrar e vencer aquele monstro. Kiroan levava consigo apenas um espelho para refletir os olhos da serpente, e um objetivo no seu coração, tão invisível como ele mesmo, naquele momento.

Eu acredito, foi tudo o que pronunciou para si mesmo, antes de flutuar para dentro da enorme sala onde a serpente incandescente parecia dormitar enrolada a uma enorme pedra branca e salpicada de pequeninos cristais muito brilhantes, na qual o sabre estava pousado.
Na parede a sua frente, Kiroan via escrito com runas, uma frase que leria em voz alta para a serpente ouvir. Nessa frase havia uma palavra escrita completamente ao contrário, com runas que pareciam feitas em outros formatos. Não se podia chegar perto da serpente uma vez que esta queimava todos os que dela se aproximavam e o seu fogo, bem como o seu veneno contido num espigão que existia na cauda, eram mortais.
- Eu sei a frase, serpente.
O enorme monstro incandescente como fogo ergueu a cabeça, mas não o olhou. Não conseguia ver nem sentir de onde vinha a sua voz. Que era um ninja que a viera defrontar, isso ela sabia, mas este ninja não era como os outros ninjas. Este, ela não podia ver, ela não podia tentar matar com os seus olhos âmbar, porque não lhe sentia a presença. Tão somente ouvia a voz que lhe falara.
Sem se desenrolar da pedra que guardava, onde o sabre estava pousado, a enorme serpente movimentava a cabeça de um lado para o outro, numa busca frenética para descobrir de onde viera aquela voz.
- Nessa frase, monstro, a palavra que falta é: Solidão. A frase, monstro, é: Entregues unicamente ao fogo, não descobrimos o amor, mas descobrimos a solidão.
Tão logo terminou de dizer a frase, Kiroan, lançou-se num flutuar frenético, uma vez que a serpente enraivecera-se com o facto de ouvir daquela voz tão desconhecida, a verdade da sua essência enquanto monstro.
Porém o monstro tinha de a ouvir, antes de morrer, para que outros monstros como aquele não renascessem das cinzas, pois fora das cinzas que a serpente incandescente viera.
Kiroan flutuava, e ao tentar fazê-lo cada vez com mais velocidade, tanto para fugir do corpo cada vez mais próximo da serpente, como para conseguir assim colocar diante os olhos âmbar, o espelho que trouxera, era assaltado pelo medo de que as forças se lhe acabassem. A serpente ficaria desfeita em cinzas quando os seus olhos se refletissem no espelho, e naquele momento era preciso dar tudo por tudo, para conseguir fazê-lo. Cada vez mais fraco e mais cansado, e com o calor do corpo do monstro a incomodar devido a proximidade que era cada vez maior, o medo teimava em querer surgir. Mas não. Kiroan, o jovem David não sentiria medo, não seria vencido pelo medo.  Os seus pais esperavam-no e os seus avós também. Havia um mundo de ninjas para voltar a unir, e dois mundos para deixarem de estarem tão distantes, uma vez que juntos seriam bem melhores, bem mais fortes.
Foi ao lembrar as palavras da sua mãe: (Não tenhas medo. A força que há em ti, é sempre maior que a que podes entender. Volta tão logo possas. Esperamos-te, com o mesmo amor de sempre.) que da sua garganta já tão seca pelo calor que sentia, arrancou o grito que lhe devolvia a confiança: Eu acredito!
Enquanto gritava, o mais confiante possível nas forças que lhe restavam, Kiroan, colocou o espelho diante os olhos do monstro e entre manobras tidas por instinto, e um cansaço que já lhe fazia sentir dor, viu fecharem-se os olhos da serpente. Não podia desistir, ainda não. Estava quase. Porém o seu corpo estava cada vez mais fraco, e flutuar era-lhe cada vez mais difícil. A qualquer momento cairia. Mas o corpo daquele monstro estava tão perto…
Quando os olhos da serpente ficaram totalmente fechados, Kiroan soube que estava perto do final. E ao ver o corpo da serpente espalhar-se inerte pelo chão e começar a perder a sua incandescência, Kiroan tivera a certeza que só lhe faltava segurar o sabre, para depois partir.
Quase sem forças e a rasar o corpo da serpente, o ninja aproximou-se da pedra, que estava mais quente do que ele esperava e segurou o sabre. Era um sabre tão leve, tão bonito, tão brilhante. E encaixava-se tão bem na sua mão. Podia ter apreciado mais o momento, mas as suas forças teimavam em terminar.
Não aguentando mais, deixara o sabre cair sobre a pedra, e o seu corpo resvalava logo depois para o chão. A ultima cena que percebera acontecer, era um uivar tão doído e tão aflito, seguido de um bater de asas tão próximo e tão urgente que vinha na sua direção. Não se apercebera de mais nada.
Perdera os sentidos. E quando os recuperou, Kiroan, encontrava-se deitado numa cama enorme e muito macia. Ao seu lado, no chão, junto a cabeceira da cama, estava Lyra. Deitada a olhá-lo atenta e meigamente. Quando os olhos dele cruzaram os dela, Lyra levantou-se satisfeita e ladrou. Pouco tempo passou até o seu velho avô entrar no quarto, seguido dos pais de David e logo a trás Haran. Estavam todos ali, como sempre. Não estaria só.
- O que foi que aconteceu? Só me lembro de…
O avô fez sinal a Haran, para que fosse ele, como já o havia feito tão logo tudo terminara, a contar ao jovem como tudo aconteceu, depois de ele ter caído devido ao imenso calor e a consequente falta de força por causa do esforço.
- David, corajoso ninja Kiroan, tu venceste aquele que foi um dos piores monstros da história dos ninjas. A serpente foi totalmente extinta. Ia-te custando a vida, bem sabemos. Mas nunca, e em momento algum deixámos-te só. Estivemos sempre lá, contigo. Salvaste e devolveste o sabre. E como dormiste por 3 dias seguidos, para recuperares, devo informar-te que Karamin está em paz. Os outros ninjas, ouviram o teu avô, nosso Koroan e, reconheceram ter perdido nesta batalha todos os motivos parvos que os faziam continuar virados contra nós. Não somos amigos, mas, já não somos inimigos, também. Sabes que para vivermos em paz entre os mundos, é preciso cultivar a paz entre os povos, primeiramente. O sabre devolveu a luz às mentes de todos, e era isso que se pretendia. E eu sei que ainda te confunde um pouco o facto de seres tu o ninja escolhido, meu filho, Mas, o teu coração puro, quando segurou o sabre, devolveu-lhe a capacidade de irradiar a luz e a magia que outro coração não poderia devolver.
Cumpriu-se a profecia. És um ninja, Jovem David.
Com um sorriso que demonstrava a alegria de uma missão tão importante ter sido cumprida, David agradeceu e abraçou cada um dos presentes. E recebeu pelas palavras de Haran e do seu avô, os votos de uma rápida recuperação, enviados pelos outros ninjas.
- Mas Haran, de onde veio a fénix que vi antes de perder os sentidos?
- Olha para o teu lado. O teu coração tem a resposta a tua pergunta. Foi tudo o que ele lhe disse, e David não precisou de mais nem uma palavra para entender o que Haran lhe dissera.
Esticou o braço e Lyra aproximou-se, colocando a cabeça sob a mão do rapaz. É só preciso confiar, Lyra. E eu, tu sabes, confio em ti.
Lyra não falaria com ele, mas David sabia que ela também confiava nele. Há coisas que não são necessárias dizer. Basta sentir.
Porque o coração é uma espece de diário da alma, reservado unicamente para os que sonham e acreditam.


*** Fim. ***

Pela Magia de Acreditar - 6ª Parte




Depois de tomar um farto pequeno almoço, David e os outros ninjas puseram-se a caminho. A viajem seria longa, e teriam de a fazer com muito cuidado. Principalmente quando entrassem no território dos outros ninjas, situação que se verificou tão logo passaram a montanha de Darin, local onde, segundo a lenda, todos os ninjas encontravam as respostas para as suas dúvidas relativas ao caminho a seguir, e onde faziam as suas escolhas.
Quando já se encontravam no território de outros ninjas, Haran e os outros ninjas que os acompanharam assumiram a sua invisibilidade, uma capacidade totalmente ninja. David olhou para onde esperava ver Haran, porque deixara de ver a sombra lado a lado com a sua.
- Haran?
- Estou aqui, rapaz. Não te esqueças que tens de ficar invisível.
- Não sei se consigo. Não me esqueci, mas não sei se consigo.
- Consegues, Kiroan. Eu sei que consegues. O segredo é só acreditar. E tu acreditas, não acreditas?
O jovem olhou em volta, na espectativa de ainda ver algum dos seus companheiros, mas não vislumbrou nenhum. Podia sentir-lhes a presença, e dessa forma saber onde estava cada um deles, mas não via ninguém. Assim, e sentindo uma força como nunca sentira, encarou a presença de Haran e com uma voz profunda disse: - Eu, acredito!
E o lugar onde estivera Kiroan, era agora apenas paisagem verdejante. Tornara-se tão invisível como os outros.
O que diferenciava o jovem ninja dos outros, era que ele, era o único que conseguia não ser detetado pelos olhos perscrutadores da serpente incandescente. Aqueles olhos que ela tinha, de um âmbar estranhamente maléfico conseguiam, contrariamente aos olhos dos humanos, ver onde é que os ninjas invisíveis estavam. Mas Kiroan, não. Ele era por isso o único a poder passar por ela, mostrar-lhe o espelho que a apagaria, e, porque ela ficaria sem quaisquer forças, ele poderia retirar o sabre do seu avô.
Quando chegaram a Talan, o templo da serpente e dos ninjas que haviam roubado  o sabre, estes não os podiam ver. Kiroan, haran e os demais, continuavam invisíveis, o que fazia com que os outros, embora os pudessem sentir, não os pudessem ver, dificultando muito mais a batalha que ali aconteceria.
Cada ninja sabia o que fazer. Haran e Kiroan procurariam e encontrariam o caminho para os confins daquele templo, lá onde a serpente guardava noite e dia o sabre de luz. E enquanto isso, os outros ninjas, ficariam à superfície a entreter numa batalha quase toda feita de toca e foge, os ninjas causadores de toda aquela desunião.
Tal como previram, Kiroan, acompanhado por Haran, passaram sem problema pelos ninjas do templo de Talan. Eram demasiadas presenças de ninjas invisíveis que haviam chegado quase em catadupa, os ninjas nem se deram conta que dois dos recém-chegados haviam ido mais longe que o pretendido.
Entretidos que estavam naquela batalha, nem se deram conta de nada, e assim deram tempo aos outros dois, para entrarem pelo alçapão e descerem as íngremes escadas que os conduziriam a sala da serpente. Um cheiro a terra molhada, umidade e mais qualquer coisa que não lhes era possível detetar subia-lhes ao nariz. Era um cheiro propício  a ser ignorado, pensaram enquanto seguiam caminho.
A certeza que seguiam pelo caminho que os levaria ao que pretendiam encontrar, tiveram-na quando, ao terminar as escadas, os seus pés tocaram o chão plano, e, ao fundo do corredor, uma luz forte e que mais parecia jorrar de um local que ainda  não conseguiam ver, devido à porta da sala estar entreaberta, espalhava-se por todo o lado, indicando que estavam muito  perto do alvo.

(…)


Pela Magia de Acreditar - 5ª Parte




De tão perdido que estava nos seus pensamentos, nem dera por Haran chegar.
- Hehehe, rapaz. A dormir acordado? David que não esperara vindo de haran um cumprimento tão descontraído, primeiramente olhou-o um tanto incrédulo, e só depois sorriu para o homem postado à sua frente.
- Haran! Oh, não dormia, apenas pensava nos que deixei lá, no mundo dos humanos comuns.
- Eu sei, rapaz. Mas verás que tudo acontecerá muito rapidamente, e não tarda, voltas a casa.
- Sim… Eu sei. O avô disse-me o mesmo.
- Então anda. Vamos até Naiara. Em breve começa a tua missão.
David seguira ao lado de Haran até ao templo. Quando la chegou esperava-o uma refeição quente e deliciosa que lhe haviam preparado, e uns aposentos simples, mas muito acolhedores. Depois de arrumar os poucos pertences que trouxera consigo, trocou a roupa por um pijama que lhe haviam deixado sobre a cama, apagou a luz e rapidamente adormeceu. Fora num entanto uma noite repleta de sonhos. Imagens sucessivas formavam um filme na sua mente. Coisas que o fizeram acordar e adormecer por diversas vezes. Imagens que não esqueceria, provavelmente. E sons tão familiares como o ladrar e uivar de Lyra, seguido de um bater de asas como nunca ouvira e o planar de um belo pássaro como só se lembrara de ver em livros fabulosos que lera. Era um belo pássaro enorme, com um olhar tão penetrante e tão reservado e meigo, aleado a uma sabedoria e maturidade como nunca pensara que pudesse vir a compreender em algo ou alguém, e muito menos numa criatura assim, tão incrível e tão estranha. Pousara ao seu lado, no meio de uma clareira, numa floresta que lhe era totalmente desconhecida. Imagens que não esqueceria. Imagens que ao acordar lembraria e talvez pudesse partilhar com alguém – com o avô, ou Haran.

Na manhã seguinte, como lhe haviam dito durante o jantar, começaria a jornada. Teria de viajar até ao outro lado da ilha, onde existia Talan -  um templo menor, muito menos cuidado e longe de ser tão bonito como este templo ao qual pertencia. Era lá que estava, segundo o que lhe haviam dito, uns tantos pisos a baixo do chão, a serpente que guardava afincadamente o sabre do seu avô.
Haran, que fora, desde que David chegara a Karamin quem o acompanhara, viera então por volta das 7 da manhã, como haviam marcado, ao seu encontro. Ficou espantado ao ver o jovem ninja acordado, sentado na cama com um olhar desperto. Haran, ao vê-lo assim mostrara logo o seu bom humor que David nunca vira das vezes que estivera com ele. Porém contrariamente ao que muitos humanos comuns julgavam, ninjas também tinham sentido de humor.
- Bom dia, rapaz! Pronto para te pores a andar? Hummm, com essa cara, não me pareces pronto para nada! Engoliste algum sapo? Ou dormiste de rabo destapado?
- Bom dia, Haran. Não é isso.
- Não é isso? Então é o quê? Salta dessa cama e veste-te, enquanto me contas o que se passa contigo. Só espero que não estejas com medo.
Enquanto falava com o jovem ninja, haran abria uma porta de um armário embutido na parede, onde estava guardado aquele que seria o uniforme de David.
- Vamos la, jovem Kiroan, toca de vestir o uniforme, que o mundo la fora, espera por ti.
Enquanto se vestia, David contava a Haran o seu sonho.
- Não sei que te dizer, rapaz, se o teu sonho tem significado, quando chegar a hora certa, tu vais saber… O pássaro a ser como me descreves, sim, é uma fénix, sem a menor dúvida, tal como a fénix que está entre os nossos símbolos. Mas, não sei de onde virá essa fénix, nem sei se existe, ao certo. Nós ninjas, acreditamos nela. Porém, e segundo a lenda, a fénix surge aos ninjas, quando estes correm perigo de se ferirem gravemente, morrerem, ou quando o seu coração está em grande sofrimento…
Quando ficou pronto, David nem parecia o mesmo. Vestido quase todo de preto, com apenas os punhos e as golas tanto da camisola, como da capa, de um verde ceco, onde se podiam ver, bordadas com finos fios de oro, três trevos de três folhas cada, e no lado esquerdo das golas da camisola e da capa, com o mesmo fio de oro, o seu nome bordado: Kiroan.
O cinto continha apenas uma pequena medalha onde se podiam ver as figuras que constavam na capa do livro do avô de David: uma bússola, uma espada e uma fénix.
- Haran?
- Sim, rapaz?
- Estou pronto?
- Sim, estás.
- Mas, Haran, e o meu sabre? A minha espada? A armadura que era suposto ter?
Harã, nada desprevenido com relação às perguntas do jovem ninja, sorriu-lhe atenciosamente e colocando-lhe a mão sobre o ombro, para lhe dar um leve empurrão na direção da porta, disse:
- Confia na tua capa. Não a julgues tão superficial. Acredita em ti. A maior arma que podes ter és tu e a tua força interior, filho.
David não sabia se podia confiar, mas tinha de o fazer. Ninjas sabiam sempre o que fazer. Ninjas eram seres dotados para fazer o bem, vencer batalhas e guerras, promovendo a paz, salvando-se a si e aos outros. Ninjas agiam com o coração mas sempre com a razão nos seus atos, e eram criaturas dotadas de perseverança, coragem, e uma capacidade de manter a cabeça fria, sempre a favor daquilo que acreditavam e ou defendiam. Ninjas que assim não o fossem, seriam ninjas, como os que mantinham o sabre de luz guardado, e promoviam a desunião dos ninjas, e dos humanos relativamente aos ninjas.

(…)

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quinta-feira, 16 de março de 2017

Pela Magia de Acreditar - 4ª Parte





A manhã apresentava-se com céu limpo, e um sol brilhante que adentrava o quarto de David para lhe dar os bons dias. Era um bonito sábado do mês de setembro. Sem grandes planos para preencher o dia, deixou-se ficar mais algum tempo na cama. Inevitavelmente pensou, tão logo olhou para o livro colocado sobre a pequena mesa de cabeceira, nas coisas que lhe tinham acontecido. Fora tudo tão real. Karamin, Haran, e os ninjas, com a profecia do ninja que devolveria o sabre ao seu avô e terminaria com a guerra silenciosa que havia entre alguns ninjas e entre os ninjas e os humanos. Era tão difícil entender como é que haviam tantos como ele a entenderem e a gostarem de ninjas, da sua arte, da sua filosofia de vida, e outros tantos que por outro lado viam o ninja como uma figura estranha, obscura e demasiado secreta para ser um ser com boa índole.
Foi ao olhar para o relógio e depois para a janela, que soubera bem onde iria. Tinha de saber mais sobre o sabre. Tinha de confirmar se sonhara ou se tudo aquilo tinha realmente acontecido, e ninguém melhor que o seu avô para explicar-lhe e contar-lhe toda aquela história.
Levantou-se, vestiu-se e desceu as escadas. A mãe esperava-o na cozinha com pão quente que comprara e café com leite e, um bolo prestes a sair do forno. Comeu e saiu de casa com uma fatia de bolo bem quente, enrolada num guardanapo. Ia ao encontro do seu avô. Sabia muito bem onde é que ele costumava estar a ler o seu jornal, durante uma parte da manhã. E como previra la estava ele. Sentado num banco de jardim, no parque que ficava na rua por trás da sua casa. Estava com o olhar perdido nas preenchidas páginas, e de tão absorto que estava numa notícia qualquer, nem se dera conta da ponta do nariz quase tocar o papel. David aproximou-se do avô e sentou-se silenciosamente ao seu lado. Nas mãos, para além do pedaço de bolo quente que começara a desembrulhar para partilhar com o avô que tanto apreciava os bolos que a sua mãe fazia, trazia também o livro que encontrara no compartimento secreto da mesa de cabeceira.
- Avô? Foi tudo o que disse, pois o sábio homem, mesmo não tirando os olhos do jornal sorriu levemente e disse-lhe:
- Sabia que virias, David. Sabia que me procurarias. Sabia que um dia virias procurar as respostas para todas as tuas perguntas. Vamos lá, meu filho. Há muito para dizer… há tanto que tenho para te contar.
David, que partilhara o bolo com o seu avô, olhava-o atento, pronto para ouvir o que ele lhe diria. Era importante… Muito importante.
- Meu filho, os anos passaram, e tu cresceste. Houveram coisas que te ensinei, outras que os teus pais te ensinaram, e outras que aprendeste por ti. Porém, houveram coisas que ficaram por dizer, ficaram por ensinar, ficaram por aprender. Talvez porque acredite que na vida há um momento certo para cada coisa. E como pudeste constatar, esse momento certo chegou. O livro que trazes nas mãos, é a prova de que há um momento certo para cada coisa. Esse livro é a prova de que eu tive o meu momento. Fui um ninja. E neste momento o ninja és tu. Tens uma missão, se a quiseres, para cumprir, uma história para viver e um sabre para recuperar, a fim de unir dois mundos. Tudo o que viste, sentiste e soubeste, não é nem nunca será um sonho. Tudo o que julgas ter sonhado, meu filho, aconteceu. Agora cabe-te a ti aceitar seres o escolhido, mas sobre tudo, escolher aquilo que te faz mais feliz. Não. Contrariamente ao que possas pensar, se não escolheres ser um ninja, eu vou entender. Não é fácil nem é de pouca responsabilidade recuperar e possuir, então, o sabre. Ser um ninja de verdade. Assim, se escolheres deixar a arte ninja para trás, não te posso condenar. Eu sou um velho ninja. Já combati, ainda que secretamente em tantas batalhas, tantas guerras, vi tantas coisas, li tantas coisas, ouvi tanto e de tanta gente, que por vezes até eu próprio julguei não ser capaz de suportar. Tantas! Tantas foram as vezes que julguei partir para uma guerra e ou para uma missão, e não saber se voltaria para junto da tua avó e da tua mãe. Temia deixá-las, e sobre tudo ser eu o causador da sua dor. Porém, ser ninja estava-me no sangue, e mesmo ainda hoje, depois do meu sabre me ter sido tirado e por isso eu ter delegado o meu lugar ao Haran, eu sinto ser um ninja, de coração.
- E serás sempre um ninja, avô. E eu serei um ninja, também. Agora era a vez do avô de David, ouvi-lo. O rapaz falou-lhe de tudo o que Haran lhe contara na ilha dos ninjas, e o avô, que fechara o jornal em qualquer momento durante o tempo que falava ao seu neto, ouvia.
- Avô, agora que sei quem e o que sou, e agora que sabes do que me aconteceu, ensina-me a arte das runas, as técnicas, e eu trarei o teu sabre. Tem de haver um fim para esta guerra entre os ninjas e entre ninjas e humanos. Tem de terminar esta separação. Eu não sei se sei passar a serpente incandescente, e se saberei como decifrar os desafios que me serão impostos até chegar ao sabre. Mas, avô, eu escolhi ser eu. Como sempre, eu vou sempre escolher ser eu. Sou um ninja, como tu.
O velho homem erguera-se do banco e fez sinal para que o jovem o acompanhasse. Antes de se dirigirem para casa, O avô segurara num abraço o seu jovem neto e disse-lhe: Só o coração daquele que acredita, sabe a arte de escolher só por si o que está certo. Segue o teu coração. Ele sabe a arte de bater pelo que está certo, empunhes tu um sabre, ou tragas em vez disso,  sonhos, vontade e amor nas palmas das mãos.
Quando o abraço do avô enfraquecera, juntos regressaram a casa. E às suas vidas normais.
David dividia o tempo entre a escola e os ensinamentos do seu velho avô. Havia de saber desenhar e interpretar as runas, caracteres pertencentes à mitologia nórdica, mas que os ninjas adicionaram ao seu próprio alfabeto a fim de serem feitos registos e serem escritas as profecias ninjas, e devia de ter todos os ensinamentos sobre a arte ninja. Ninguém melhor que o velho Koroan, líder dos ninjas, para ensinar ao seu jovem neto todos os truques, segredos, estratégias, e tudo o que sabia relativamente acerca  das reações e ações tomadas em missão.
Na noite escolhida para o regresso de David por algum tempo a ilha de Karamin, o avô subira ao quarto do rapaz a fim de lhe dar algumas indicações e ajudá-lo a passar pela porta secreta, que o levaria até a ilha dos ninjas, onde haran o esperava junto com todos os outros companheiros.
- David, meu jovem Ninja Kiroan, leva sempre contigo o velho livro. Sabes que ao olhares para a página com o número nove desenhado na diagonal e com a respetiva runa da data do teu nascimento, para voltares para casa, é só tocares no papel e pensares no que queres com muita força – com toda a força que há dentro do teu coração. Esse livro é a chave para transitares entre os dois mundos. É também a chave que falta aos ninjas que se viraram contra nós, e aos humanos que nos desacreditam, para andarem entre os dois mundos. Nunca o percas, filho. E vai. Não te esqueças: A resposta para as dúvidas e escolhas, está  dentro de ti.
Dizendo aquilo, despediu-se mais uma vez de David que dividia o seu olhar entre a presença do avô e da  doce Lyra que parecia compreender todas as coisas, olhando o rapaz com aqueles olhos de quem sabia que se iriam ver em breve.
Quando abriu o livro e olhou a página com o nove na diagonal e a runa da data do seu nascimento, David sentiu-se entrar novamente no calidoscópio que o levaria a Karamin. Voltou a fechar os olhos, e sentia, para além das voltas da espiral em que se encontrava, o beijo que a mãe lhe dera ao desejar-lhe boa sorte na missão que aceitara. E ainda eram as palavras que ele ouvia na sua mente ditas pela mãe, quando se sentiu tocar suavemente a relva alta e cuidada, junto ao cipreste que vira e junto do qual ficara, quando, na primeira vez ali fora parar.
- Não tenhas medo. A força que há em ti, é sempre maior que a que podes entender. Volta tão logo possas. Esperamos-te, com o mesmo amor de sempre. E esperariam. Os seus pais, os seus avós esperá-lo-iam. E ele? Ele voltaria. E toda aquela separação tão ridícula de mundos terminaria. Mas por agora, cada coisa a seu tempo. Havia um longo caminho para percorrer, e de nada adiantava correr. Não seria por isso que depois se tornaria num agora.

(…)

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sábado, 16 de julho de 2016

Pela Magia de Acreditar - 3ª Parte

Post anterior – 2ª Parte
Para quem já não se lembra, clique aqui para ler glossário


Enquanto seguiam o seu percurso, David via a paisagem verdejante e o rio de águas transparentes, ladeado por belas e naturalmente esculpidas pedras, onde dava vontade de sentar e ficar a tocar naquela água fresca e convidativa.
Quando chegaram Haran anunciou-lhe:
-Ei-lo! Naiara. E o que David via diante si era um templo, muito bem cuidado, de paredes de pedra cinzenta clara. Uma estrutura forte que nem o tempo tinha deixados sinais de degradação, abandono ou desleixe. Pelo contrário. Todo o vasto edifício parecia um monumento perfeito, devidamente cuidado.
- Chegámos, Jovem Kiroan. Este é o nosso templo. Bem vindo a casa.
Foram estas as palavras de Harã ao mesmo tempo que com um toque firme no ombro do jovem dava-lhe a indicação de que podia e devia avançar.
David avançou pelos portões e portas de acesso do templo e só parou quando os seus pés tocaram o mármore do chão do salão de entrada. Diante si uma escada enorme em caracol indicava que havia imensas coisas a descobrir. Haran, que parara ao lado de David apenas por um curto instante, começou a subir a enorme escadaria, e fez sinal ao rapaz para que ele o seguisse. Enquanto subiam a escada, David ouvira um leve bac da porta principal a fechar-se. Alguém, pensou o jovem, estaria ali para fechá-la, e nem me dei conta.
Tão logo alcançaram o primeiro patamar, tudo o que podiam ver eram pessoas silenciosas, trajadas com fatos escuros, sentadas num enorme tapete, alinhadas por idades, segundo o que parecia. No meio do enorme tapete havia um espaço, que ninguém ocupava.
Olá. Apeteceu-lhe dizer a todas aquelas pessoas vestidas de igual e apenas com diferenças de cor na capa que os cobriam, e nos cintos e punhos – cores que deviam variar, presumiu o rapaz, consoante o grau de cada um e a idade. mas a sua voz não lhe saía. Era melhor permanecer calado. Haran explicarlhe-ia o que era tudo aquilo. E quem eram aquelas pessoas vestidas como ele. Deviam ser ninjas, deduziu, mas, o que é que faziam todos ali, tão alinhados, tão silenciosos e com um ar de espectativa nos rostos?
Harã, adivinhando os pensamentos de todos, inclusive os pensamentos do jovem ao seu lado apreçou-se a ocupar o seu lugar no tapete para falar aos demais presentes na sala.
- Ninjas, este jovem que vedes é Kiroan, o neto do nosso líder Koroan, atualmente presente no mundo dos humanos comuns. Como tendes presente na vossa memória e coração, este é o jovem ninja esperado para cumprir a missão de encontrar o sabre do nosso koroan, roubado pelos responsáveis de tantas guerras existentes no nosso mundo, e em parte com o mundo dos humanos comuns. Como sabeis, ninjas, o único sabre capaz de produzir a luz que fará com que os mundos se unam e tudo termine é a luz do sabre roubado do nosso koroan. E como dita a profecia, Kiroan, é o ninja capaz de entrar onde está o sabre, desvendar o segredo da serpente incandescente e resgatar aquilo que nos pode ajudar a acabar com esta guerra. Em que temos vivido desde à milhares de anos.
Todos, como Harã dissera, sabiam quem era Kiroan, e todos sabiam bem como estavam de acordo com o entendimento feito da leitura da profecia, escrita com runas, e que todos os ninjas, contrariamente aos humanos, sabiam ler e escrever.
Só um coração forte, com a dureza do asso, e a chama do amor, e olhos de quem vislumbra mais que o agora, podem vencer a luz que prende a única razão de todos os fins.
Depois de lhe explicarem e de lhe lerem a profecia, David entendera e soubera muito bem o que teria a fazer. Teria de cumprir com o seu papel de ninja. Afinal só a ele é que lhe cabia a missão de acabar com as guerras que separavam os mundos.
Não sabia se era ele que tinha aquele coração descrito na profecia. Porém era o sabre do seu avô que mudaria todos os finais. E desde pequeno que David fora ensinado a cumprir caminhos, sempre embalado pelo desejo da descoberta e da verdade, sobre todas as coisas.
Quando terminou de ouvir o que os ninjas lhe tinham a dizer, David – o jovem ninja Kiroan, seguiu ao lado de haran, até ao local onde se tinham encontrado. Antes de se despedirem e dizerem um até breve, Harã encinou-lhe a voltar para o seu mundo, para o seu quarto, para a sua vida como humano comum. Era simples. Era só abrir o livro do seu avô, na página onde estava desenhada uma casa, e colocar a mão no cipreste junto do qual se encontrava agora e junto do qual ficara quando chegara ali a Karamin, a ilha dos Ninjas.
Essa seria mais uma das descobertas que faria, com o tempo. David iria descobrir e aprender que, com o livro do seu avô muitas eram as formas existentes de viajar entre os dois mundos.
Ao voltar para o seu mundo dos humanos, para casa e para o seu quarto no sótão da sua casa, o caleidoscópio acontecia com as mesmas imagens, cores e David continuava a sentir-se numa espiral, mas desta vez, ao invés de se sentir a descer, sentia-se a subi-la. Voltou a fechar os olhos tal como fizera quando fora parar a Karamin. Tinham sido imensas emoções. O cansaço começava a fazer-se sentir e ele sentia precisar de descansar.
Quando voltou a abrir os olhos, la estava ele, deitado sobre a colcha azul da sua cama, no seu quarto nas águas furtadas, onde uma janela deixava transparecer a noite estrelada que ele vira chegar. Lyra, permanecia deitada na cama, completamente alheada do mundo, no seu sono profundo. David podia ver que ela nem se dera conta que ele ali não estivera. Ou estivera? Pois afinal sempre que ele saía ela dava-se conta! Que estranho era ele não ter estado ali e ela continuar a dormir como se nada se tivesse passado. Estaria a ficar doido? Teria ele sonhado? ÀS tantas era isso: ele tinha sonhado e achava que não. Achava que tudo tinha sido verdade. Mas como é que era possível ser verdade. Ele era um rapaz comum, igual a tantos outros rapazes. Não poderia ser um ninja tal como tinha sonhado. Não poderia… Mas aquele sonho fora tão real E lembrava-se tão bem da profecia! Ainda para mais tinha de la voltar. Ele voltaria a Karamin, a fim de aprender todas as coisas sobre os ninjas e todas as coisas sobre a missão para a qual ele fora o escolhido. Em breve, então saberia se sonhara, ou se vivera realmente toda aquela história. Vencido pelo cansaço e já metido dentro da cama, adormeceu. Quem saberia se voltaria a sonhar com Karamin e com Haran e todos os outros ninjas.


(…)

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